Quarta - 10 de Março de 2010


 

     Origem

                     O Café no Brasil

               O Café na Vila Franca do Imperador

O habitat natural do café é a região entre a Abissínia (atual Etiópia) e os grandes lagos centrais africanos, principalmente nas províncias montanhosas de Kaffa e Enéria.

A primeira migração do grão foi para a Arábia – Iêmen – ao sul da Arábia Saudita de hoje, atravessando o mar vermelho. Nesta região a infusão do café recebeu o nome de "kahwah" ou "cahue", que significa força.

Foi a partir da Arábia que ele se espalhou pelo mundo. Do Iêmen o café iniciou sua trajetória numa longa viagem, na qual não faltaram episódios místicos, religiosos, perseguições, tribunais que ora condenaram, ora beatificaram esta maravilhosa riqueza natural.

A Europa conheceu a bebida através dos venezianos em 1615. Até o século XVII, somente os árabes produziram café. Os holandeses conseguiram as primeiras mudas e as cultivaram, cuidadosamente nas estufas do jardim botânico de Amsterdã, e a partir delas iniciaram, em 1699, plantios experimentais que devido ao sucesso trouxe lucro, encorajando outros países a tentar o mesmo.

O café, de Java via Amsterdã, vai para a França, de onde uma única muda é levada a Ilha de Martinica, nas Antilhas. De lá vai para Caiena, Guiana Francesa, onde começa a história do café brasileiro.

Por ocasião de expedição enviada a Guiana, pela Coroa Portuguesa em 1727, o sargento-mor Francisco de Melo Palheta recebeu um punhado de sementes e algumas mudas de café, de presente da esposa do governador da Guiana Francesa. Em seu relatório a D. João V, solicitando 100 casais de escravos e 50 índios para que pudesse cultivar a planta, consta que ele possuía "mil e tantas frutas e cinco plantas de café".

No Brasil, o café foi primeiramente plantado no Pará em 1727 e demorou a constituir-se em artigo de exportação. Também foi cultivado no Maranhão, Pernambuco, Ceará (mudas provenientes de Paris) e Bahia (mudas provenientes do Espírito Santo), mas sua produção no Nordeste não chegou a ser significativa.

Enquanto no Espírito Santo, o café se constituiria em produto de exportação  no final do século XVIII, o Rio de Janeiro, em 1779,  embarcou em seu porto 79 arrobas de café e em 1806 esta cifra já era de 82.245 arrobas.

Do Estado do Rio de janeiro os cafezais se espalharam pelos municípios da hoje Baixada Fluminense, chegando a Resende, Vale do Paraíba e atingindo Angra dos Reis. A introdução do café, nesta província, é atribuída ao Desembargador João Alberto Castelo Branco.

Os primeiros cafeicultores fluminenses foram os nobres portugueses e elementos do clero, que cultivavam o produto em pequenas propriedades.

A cafeicultura fluminense consolidou-se no Vale do Paraíba, sendo que em 1802 são registradas escrituras de venda de terras e cafezais. Com o avanço do  cultivo do café, as terras tornaram-se crescentemente valorizadas, surgindo, assim, uma nova elite, cuja riqueza era medida pelo número de cafezais existentes em suas propriedades e pela posse de escravos, acarretando o desaparecimento da pequena propriedade.

Em São Paulo, tem-se referência das primeiras plantações no distrito de Bananal em 1782, mas sem descartar a hipótese de que  possam ter sido nos distritos de Ubatuba ou São Sebastião. Dessas áreas a cultura foi levada para o Oeste da Capitania, onde foram feitos ensaios em várias localidades. No ano de 1806, São Paulo exportava 23.420 arrobas.

O primeiro processo de beneficiamento do café foi o dos pilões manuais que utilizavam a mão-de-obra escrava.

Minas Gerais utilizou-se das estradas, inicialmente usadas na mineração, para levar seu café ao porto carioca. Em Minas houve uma redistribuição de atividades e áreas economicamente ativas, com a Zona da Mata tomando dianteira na produção econômica do Estado.

A cafeicultura permaneceu como atividade secundária durante todo o século XVIII, consolidando-se apenas em meados do século XIX, quando os Estados Unidos, grande consumidor de café, tornou-se livre da dominação britânica. O Brasil, favorecido pela posição geográfica encontra, naquele país, um de seus principais mercados, que absorverá mais de 50% da exportação brasileira.

Associando-se a este fato a crise das culturas, o café ficou sem competidor e no período de 1850 a 1888 o Brasil assume a liderança mundial na exportação de café. Este período foi de contínua prosperidade para a cafeicultura, registrando a mudança do eixo econômico nacional do Nordeste para o Sudeste.

No final do século XIX o café correspondia a 70% das exportações brasileiras e era responsável por cerca de 70% da produção mundial.

A produção desenvolveu-se de forma acentuada em São Paulo e, entre 1876 e 1883, com o avanço da cultura para o Oeste do estado, este teve sua produção duplicada.

Com o fim do escravismo, os cafeicultores recorreram à mão-de-obra imigrante que, na segunda metade do século XIX, foi responsável pela vinda de 220.000 colonos.

Os fazendeiros paulistas estabeleceram conexões sócio-econômicas entre suas propriedades e as cidades próximas, criando uma nova mentalidade urbana então inexistente na região.

Após seu apogeu no final do século XIX, o café encontrou dificuldades, como a Abolição que enfraqueceu sua estrutura econômica e em 1920 foi abalado por uma grande crise, decorrente da política inábil da república, frente a uma produção maior do que o consumo no mercado mundial.

A forma encontrada, para resolver o problema da superprodução, foi a destruição de cafezais velhos, a queima de safras e a proibição de novos plantios.

No início da segunda metade do século XX, a demanda aumentou devido ao crescente consumo no mercado externo e no interno com a urbanização e o crescimento da população.

A partir de 1960, depois de regulamentadas as leis trabalhistas, os fazendeiros deixaram de ter empregados fixos nas fazendas (desobrigando-se assim de cumprir a lei), surgindo assim, os trabalhadores volantes (bóias-frias) moradores nos centros urbanos e que trabalham somente na época de colheita.

Nas últimas décadas, o café brasileiro passou a enfrentar a concorrência de outros países produtores e a interferência externa na economia brasileira, pois que, o café tornou-se um produto de alta rentabilidade nas bolsas de valores do mercado internacional.

A produção e a procura do café não diminuíram. O preço no mercado mundial é que sofre oscilações, sobretudo devido à qualidade do produto. Atualmente, o maior produtor de café no país é o Estado de Minas Gerais, que detém em torno de 50% da produção brasileira. Já o Brasil é o maior produtor mundial, responsável por mais de 40% da produção total.

A Região entre os rios Pardo e Grande, no nordeste paulista, começou a ser desbravado no início do séc. XVII por bandeirantes que buscavam as Minas de Goiás. A rota rumo à recém fundada Vila Boa de Goiás passava por essa região a famosa Estrada do Sal, por onde transitavam bandeirantes, comerciantes e mineradores, em demanda daquelas minas. Ao longo deste caminho formaram-se pousos, núcleos iniciais de povoamento e abastecimento. Esse quadro social perdura até fins do séc. XVIII.

No início do séc. XIX, a região acolhe forte fluxo populacional: são os mineiros que vêm das Gerais, principalmente do sul para criar gado e plantar lavoura, sucedendo a decadência da mineração, devido a escassez do ouro de Aluvião então explorado. A mão-de-obra procurou outra atividade mais estável, ligada a terra começando, assim, a administrar a Capitania de São Paulo.

Os primeiros habitantes pioneiros chegam nos anos iniciais do séc. XIX e em 1805, criam a Freguesia da Franca, que constitui o primeiro núcleo urbano da região. Em volta da Igreja, cujo vigário era o padre Joaquim Martins Rodrigues, os mineiros migrantes, liderados por Hipólito Antonio Pinheiro (fundador de Franca) levantam suas casas, que só abrigariam seus moradores aos domingos e feriados. Era nas fazendas que viviam a maior parte de suas vidas. Uma organização dentro do mundo rural. Criada a Freguesia da Franca desvinculava-se da Freguesia de Moji-Mirim, cuja jurisprudência eclesiástica atingia até as margens do Rio Grande. O nome de Franca homenageia o então Governador Geral da Capitania de São Paulo, Antônio José de Franca e Horta, incentivador da fixação do núcleo populacional de origem mineira em território paulista. Sem essa ação, talvez a região entre-rios Pardo e Grande, fosse inteiramente apossada pela capitania de Minas Gerais.

Os mineiros, acostumados nas cidades de sua capitania, as mais ricas e movimentadas da colônia, constituíram a Freguesia, e em 28 de novembro de 1824 a Vila, que era Del Rey, passa a Vila Franca do Imperador (homenagem a D. Pedro I), mediante decreto imperial obrigando a sua instalação pelo Ouvidor Freire, desvinculava-se, então, de Moji-Mirim e passava a comandar os destinos da comunidade, onde será também, administrada a justiça.

Se analisarmos os orçamentos da Vila Franca, num período de 1830 a 1846, podemos perceber que as rendas municipais estavam decrescentes pela decadência da pecuária. Assim é que em 1836 o orçamento de Franca, que era de um conto e noventa e quatro mil reis, o décimo da província, passa para quatrocentos e trinta e seis mil e trezentos e setenta e um reis, ocupando o trigésimo terceiro lugar.

Os vereadores da época estavam preocupados com esse empobrecimento, não podendo deixar de registrar o papel decisivo das Câmaras Municipais em todos os grandes momentos históricos do Brasil-Colônia, no Primeiro e Segundo Impérios e até os primeiros anos da República. Havia na época uma verdadeira e salutar descentralização administrativa. As Câmaras eram eleitas pelos munícipes e gozavam de grande prestígio, autoridade e autonomia na gestão dos interesses municipais, tanto os econômicos, quanto de justiça e segurança.

Registre-se em 21 de julho de 1834, portanto, a nossa Câmara nomeou uma "Commição de Pusturas" que apresentava o seguinte teor:

"Commição de Pusturas incarregada de dar parecer relativamente a necessidade de plantações de Café e Mandioca, He de parecer que todo o Lavrador plante 100 covas de Mandioca correspondendo a cada braça – um pé de café e assim hirão concervando annual ou antes para mais do q. para menos. Todo o proprietario será obrigado a plantar e conçervar 25 pés de café correspondente a cada braça, nunca para menos, e todos aqueles, ou estes q. o contrario fizerem pagarão 2$00rs para as Dispezas do Concelho, e na falta dias de prizão, e duplo na reincidência – e devendo os officiaes dos respectivos Quarteiroens dar conta aos fiscais no tempo respectivo com as mesmas penas declaradas aqueles. Vilha Franca do Imperador, 21 de julho de 1834. (aa) Joaquím da Rocha Neiva – Thomaz Corrêa de Souza – Jozé Teixeira Alvares."

Percebe-se através deste texto que os cafeeiros até então se constituíam em pequenas plantações de fundo de quintal, fato esse confirmado por inventários datados de 1835, o que nos leva a crer que em 1830 alguns cafeeiros já estavam sendo plantados em hortas, para o cafezinho.

Em 1836, encontramos o primeiro registro de produção de café, atribuído a Franca no total de 261 arrobas.

Já em 1870, registra-se no relatório de exportação da província de São Paulo o volume de 2.534, arrobas atribuídas a Franca.

Daí, podemos admitir, que na década de 1860, devam ter se iniciado as plantações de lavouras com objetivos econômicos.

O relatório da província de São Paulo impresso em 1888 – com dados da produção de 1887 – elaborado pela comissão Central de Estatística da Província, sendo presidente da comissão o Dr. Elias A. Pacheco e Chaves e o Presidente de São Paulo o Conselheiro João Alfredo Correa de Oliveira, atribui a Franca, 1283 escravos e afirma terem sido produzidos 60.000 arrobas de café.

Em busca de tão grande riqueza, a Estrada de Ferro Mogiana, inaugura sua estação na Villa Franca em 11 de abril de 1887.

D. Pedro II foi pródigo em conceder títulos de nobreza aos grandes cafeicultores brasileiros.

O período de maior expansão cafeeira situa-se nos anos vinte: em 1920, a região da Mogiana já lidera os quadros estatísticos do Estado de São Paulo, com uma produção de 7.852.020 arrobas e 35,53% do total do Estado.

Então, o café já havia criado em Franca uma aristocracia, que dominava sua vida política, econômica e social. Esta fazia viagens à Europa, educava os filhos nos melhores colégios, edificava palacetes na "praça da igreja", assistindo às procissões e principais acontecimentos urbanos da janela de suas casas. Mas com a depressão de 1929/30,esta aristocracia perde a liderança política e com o passar do tempo, também a econômica e a social, em favor da burguesia comercial e industrial. Parte da antiga classe dominante se aburguesa, através de seus elementos mais dinâmicos, que ingressam nas atividades de comércio e indústria, reconquistando, embora parcialmente, posições perdidas, enquanto outra parte se proletariza, disputando empregos públicos secundários ou se dedicando a modestas atividades, para poder sobreviver.

Foi o café que inverteu a tendência declinante das rendas do nosso município, surgindo os palacetes, os hotéis e a Vila Franca transformou-se em próspera cidade do começo do séc. XX.

O café distribui a riqueza e democratiza o latifúndio pela divisão natural entre os herdeiros dos Barões de ontem.

Fontes:
"Luís  Norberto Pacoal,
Aroma de Café - Guia Prático para apreciadores de Café,
Ed. Fundação Educar-DPaschoal, 1999"
"Almanaque da Franca,
Editora Escola Salesiana, 1912"
"Affonso E. Taunay,
História do café no Brasil"
"Dra. Marina de Andrade Marconi,
Folclore do Café"
"Museu Histórico da Franca,
Departamento de Educação eCultura" 
 

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EDIÇÃO DE NÚMERO 66

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