El Niño preocupa especialistas e reacende debate sobre próxima safra de café
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A possibilidade de um El Niño de forte intensidade nos próximos meses dominou as discussões desta terça-feira (23) em encontro promovido pelo Departamento do Café da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Para os especialistas, o fenômeno climático é, atualmente, o principal fator de risco para a safra 2027/28, especialmente durante a florada dos cafezais no Brasil e no Vietnã.
Em um cenário de estoques globais historicamente baixos, mesmo as projeções de uma safra recorde não dissipam a apreensão do mercado. “O mercado de café não suportaria outra crise climática. Não temos estoques para absorver um problema adicional”, alertou Albert Scalla, vice-presidente sênior de trading da StoneX, que participou do encontro diretamente de Miami, nos EUA.
Segundo ele, a intensidade do fenômeno será determinante para o comportamento dos preços e das vendas nos próximos meses. “Hoje, todo mundo tem que ficar de olho na intensidade do El Niño. Se ele estiver mais forte, o produtor deve segurar as vendas por dois, três ou quatro meses. Se enfraquecer, deve acelerá-las.”
Segundo Eduardo Carvalhaes, do Escritório Carvalhaes, o fenômeno costuma provocar veranicos durante o verão brasileiro, cenário que pode atrasar as chuvas e comprometer o desenvolvimento dos cafezais.
A preocupação ganha relevância diante do quadro global de oferta. Segundo Scalla, a redução da demanda causada pela inflação ajudou a equilibrar o mercado em 2025. “Nenhum outro país está tendo aumento de produção: Colômbia e Peru estão diminuindo a oferta, o Vietnã está na casa dos 30 milhões de sacas e a América Central não consegue suprir o mercado.” As exceções, segundo ele, são alguns países africanos e o Brasil, o que amplia a importância dos possíveis efeitos de um “super El Niño” no território nacional.
Para os especialistas, a única certeza é que os estoques globais permanecem apertados. “Se a safra der certo, teremos de 8 a 10 milhões de sacas acima do consumo mundial, mas isso não é nada”, afirmou Carvalhaes. “A única tranquilidade seria ter estoques grandes no mundo, e não há perspectivas disso em dois ou três anos.”
As perspectivas para a safra brasileira também dividiram opiniões. A StoneX projeta uma produção de 75,3 milhões de sacas, enquanto o Conselho Nacional do Café (CNC) trabalha com números mais moderados, próximos de 70 milhões, em linha com as estimativas recentes da Conab (66,7 milhões de sacas) e do USDA (71,9 milhões).
Para Silas Brasileiro, presidente do CNC, parte das estimativas de mercado pode estar superdimensionando o potencial produtivo do país, referindo-se às projeções de 73,3 milhões de sacas do Rabobank e de 75,7 milhões de sacas do Safras & Mercado.
Carvalhaes também demonstrou ceticismo em relação às estimativas mais elevadas. “Não acredito nos números mais altos. Muitos produtores deixaram o café mais tempo no pé para aumentar a proporção de frutos maduros, mas acabaram sendo pegos pelas chuvas, que derrubaram parte dessa produção”, afirmou.
José Braz Matiello, engenheiro agrônomo e pesquisador da Fundação Procafé, chamou atenção para as limitações metodológicas dos levantamentos. Segundo ele, boa parte das estimativas ainda se baseia mais em área plantada do que em medições efetivas de produtividade. “A maioria dos levantamentos é subjetiva”, afirmou. Ao mesmo tempo, ressaltou que as condições climáticas favoráveis durante a florada e a granação dos frutos contribuíram para uma safra mais robusta. “Estamos vendo o café seco deste ano, e ele está bem pesado.”
Matiello também vê sinais de expansão do parque cafeeiro brasileiro. “Acho que plantamos mais de 400 mil hectares de lavouras novas, e nenhuma delas será deixada no caminho”, afirmou. Segundo ele, os bons preços pagos ao produtor estimularam novos plantios, especialmente em áreas tecnificadas e irrigadas. “O nosso potencial de produção é de muito café. Até quando podemos crescer, porém, não sabemos.”
Apesar do bom desempenho do ciclo atual, Matiello vê sinais de alerta para a próxima temporada. Além da bienalidade natural do cafeeiro, ele destacou o aumento da incidência de doenças associado ao prolongamento das chuvas e avalia que a safra seguinte tende a ser menor.
Já Celso Vegro, pesquisador do Instituto de Economia Agrícola (IEA), demonstrou maior confiança na capacidade de adaptação do setor. Segundo ele, o avanço da adoção de bioinsumos e das práticas regenerativas deve fortalecer a competitividade da cafeicultura brasileira mesmo diante dos desafios climáticos.
O consenso, porém, é que o comportamento do clima nos próximos meses seguirá como principal variável para o mercado.
Escrita por: Cristiana Couto do Café Point
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